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A única garantia que recebemos da vida é de que ela vai acabar.

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João Carlos
Escrito por João Carlos

A consciência de nossa finitude é a engrenagem que nos impulsiona a viver melhor e com mais intensidade.

Há garantia para quase tudo. Você pode conseguir estabilidade no emprego, nas relações, um plano de saúde, seguro do carro, da casa, etc. Gostamos tanto de ter garantias que isso se estende à própria vida, mesmo dela não tendo nenhuma. Apenas uma: ela vai acabar e ninguém sabe quando. Esse é de longe o nosso maior temor.

A vida não tem manual, tampouco viemos ao mundo com uma etiqueta informando nosso “tempo de vida útil”. O máximo que conseguimos fazer é recorrer à boas práticas, sejam elas morais ou de cuidados com a saúde. No entanto, nem isso é capaz de nos deixar imunes à morte repentina.

Nos importamos demais com questões efêmeras, que não deveriam ter nenhuma relevância frente à gravidade de uma morte iminente. Estamos sujeitos à morte a cada minuto e mesmo assim vivemos como se o amanhã fosse certo. Acreditamos na ilusão de que os que estão à beira da morte são apenas aqueles que estão nas UTIs, bandidos, policiais, aventureiros. Quanta insensatez… gastar os poucos dias que nos restam com banalidades como se o fim de tudo fosse uma realidade distante e que temos a nossa vida sob controle.

Nós negamos a morte o tempo todo, evitamos falar sobre ela, temos medo só de pensar, mas a morte é o motor da vida. A consciência de nossa finitude é a engrenagem que nos impulsiona a viver melhor e com mais intensidade. Prova cabal disso é quando vamos a algum funeral, por exemplo, e fazemos profundas reflexões sobre a forma como temos vivido nossa vida.

No entanto, há algo contraditório nisso. Se temos tanto medo de morrer, não deveríamos ser tão ansiosos pelo dia de amanhã, pela sexta-feira que não chega ou pelo fim do ano letivo. E se não chegarmos até lá? E se alguém que amamos não chegar até lá? Ansiar pelo futuro é como ansiar pela morte, afinal, a ela estamos expostos a todo momento.

O futuro é uma eterna incógnita e toda ansiedade é burra, pois é uma tentativa de antecipar acontecimentos, momentos e emoções que existem até então apenas na nossa imaginação. O futuro é irreal. Ao sucumbirmos à ansiedade, nos esquecemos de que a cada dia que passa estamos mais perto da morte. A única certeza que o amanhã traz é a possibilidade de sua não existência. Podemos acordar, ou não, e se acordarmos, qual garantia temos de que chegaremos ao final do dia?

Seria mais inteligente se tivéssemos uma obsessão pelo hoje, se jamais quiséssemos por um fim no agora. Levantar a cada manhã com a alegria de um sobrevivente que ganhou mais uma chance de viver. Enxergar o presente como um presente de Deus. Veja bem, não associe isto às frases de efeito que você ouviu durante toda a sua vida: “viva como se não houvesse amanhã”, “carpe diem”, entre outras. O que estamos falando aqui é que a sua morte pode estar encomendada para amanhã ou para as próximas horas, percebe a gravidade? Ainda que você não tenha nenhuma doença, todos, sem exceção, estamos vulneráveis a fatalidades, afinal, somos tão frágeis quanto um pedaço de palha.

Talvez você ainda queira viver na ilusão enquanto procrastina mudanças importantes na sua vida. Certamente você deve ter graves motivos para isso. Anular-se de viver os próprios sonhos é um fardo pesado que muitos carregam nos ombros. Mas será que vale a pena viver seus últimos dias seguindo a média ponderada da sociedade? Do que exatamente você tem medo?

O medo rouba de você aquilo que há de mais precioso: o tempo. O tempo é uma fonte não renovável de vida. É sua decisão gastá-lo da melhor forma possível sem esperar que o amanhã lhe traga alguma garantia. A única certeza que podemos ter é do aqui e agora. O que você tem feito do seu? Não desperdice sua vida.

Sobre o autor

João Carlos

João Carlos

João Carlos é um maltrapilho anônimo brincando de ser escritor. Em dias comuns, trabalha para sustentar seu vício em café e chocolate. Na folga, gasta a maior parte do seu tempo colecionando pensamentos subversivos. Repudia clichês, mas não resiste a uma alma sincera.