Crônicas & Poemas

Trânsito

João Carlos
Escrito por João Carlos

“Quem dorme sonha, quem trabalha conquista”. Era o que estava escrito num papel cheio de amendoins, colocado em cima do meu retrovisor.

Numa segunda-feira de manhã, em meio a centenas de carros parados no trânsito, é possível ver gente de todo tipo: o semblante frustrado da mãe que leva seus filhos na escola, mas que volta e meia se pega pensando em como seria sua vida se tivesse optado por seguir a carreira que sempre sonhou; a tensão do motorista iniciante com medo de causar algum acidente; o riso inconfundível daquele que está dando a primeira volta no carro que acabou de comprar, e que aproveita o trânsito parado para explorar melhor o espaço interno do veículo; o semblante pesado do executivo pai de família que só na semana passada perdeu três contratos devido à crise. Enfim, todo tipo de gente.

Em meio a todos estes, surgiu o menor de todos.

“Quem dorme sonha, quem trabalha conquista”.

Era o que estava escrito num papel cheio de amendoins, colocado em cima do meu retrovisor. O menino franzino de aparentemente dez anos de idade era tão rápido que logo sumiu do meu alcance.

Entrando por entre os carros, ele notava a insatisfação no semblante da maioria dos motoristas ali parados. Dos seus colegas, ele era o mais sensível e observador, e naquele dia estava mais pensativo do que de costume. Ele já estava trabalhando ali há algumas horas, e começava a sentir os efeitos da insolação.

Pensava consigo:

“ – Hoje tá ruim! Esse povo tá de mau humor! Eu hein, reclamam de barriga cheia! Poderiam pelo menos reclamar com a barriga cheia do amendoim que estou vendendo!”

Logo depois procurou uma sombra e se sentou próximo ao meio fio. Pensava em como esse mundo é injusto. Leu novamente a frase que dizia “quem trabalha conquista”, e questionou:

“ – Conquistar o quê? Alguns trocados que irão garantir, quem sabe, a única refeição do dia? Isso é conquistar? Mas Deus me livre falar isso alto! Vão falar que eu me faço de vítima, e que isso é pretexto para ser marginal”.

O diálogo interno do menino prosseguia tentando entender o motivo de haver tanta gente insatisfeita com a vida que tinham. E concluiu em minutos aquilo que muitos morrem sem entender, e às vezes, só entendem quando são acometidos por um câncer ou quando já no fim da vida, olham para trás e têm a triste sensação de que todo sacrifício e tempo gasto foram em vão.

De repente, em meio a pensamentos angustiantes, lhe sobreveio um alívio incomum. E percebeu também que dentro de si ainda havia traços de felicidade.

Então, um leve riso brotou no pequeno rosto castigado pelo sol.

Lembrou-se de como o último banho de mangueira na calçada do seu vizinho tinha sido bom.

Lembrou-se do aconchegante colchão que sua mãe ganhou e deu para ele e os irmãos.

Das pipas voadas que consegue pegar na rua sem gastar um centavo.

Das semanas em que consegue vender bastante e pode ir ao mercado com sua mãe de cabeça erguida, aproveitando também para se divertir assistindo as caras surpresas dos seguranças quando eles voltam com o carrinho cheio de compras para pagar.

Chegou à conclusão de que quanto mais perto estivesse da simplicidade, mais perto estaria da felicidade.

As pessoas tentam comprar a felicidade e a consideram cada vez mais cara. Mas, como pagar por algo que não tem preço? Pobres infelizes… mal sabem eles que a felicidade é gratuita.

 

Sobre o autor

João Carlos

João Carlos

João Carlos é um maltrapilho anônimo brincando de ser escritor. Em dias comuns, trabalha para sustentar seu vício em café e chocolate. Na folga, gasta a maior parte do seu tempo colecionando pensamentos subversivos. Repudia clichês, mas não resiste a uma alma sincera.