Espiritualidade

A vida nunca tem fim: a realidade metafísica da morte.

morte
João Carlos
Escrito por João Carlos

Porque viver é muito mais do que simplesmente habitar um corpo.

A morte é um fenômeno inexoravelmente cercado de mitos e mistérios que aterrorizam o imaginário coletivo desde os primórdios da humanidade. Muitos a consideram um ponto final na existência, o fim da linha, e que estamos todos fadados a cair nesse limbo do esquecimento infinito. Outros preferem espiritualizar e encontrar algum sentido que os faça suportar este fato implacável atribuindo a ela significados e o encargo de ser apenas uma passagem para uma vida plena na eternidade.

Ainda que a ciência desconheça os mistérios que cercam o pós-vida, há uma crescente intuição que nos sugere que a vida vai muito mais além da matéria e que há mundos existentes que fogem da nossa compreensão. Como não lidamos muito bem com mistérios, alguns sucumbem ao estilo pragmático de viver. Escolhem o caminho de Tomé e seguem cegos pelo seu próprio desejo de ver para crer.

“Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia”. – William Shakespeare

Ainda que céticos e crentes discordem em inúmeros pontos, ambos hão de concordar com o fato de que mesmo que a morte se apresente nos sugando o último sopro de vida, ainda assim, continuaremos existindo na memória e no coração daqueles que ficam.

O amor que nos une como raça humana transcende qualquer tempo e espaço, e seja lá em que dimensão for que os mortos vivem, não importa, sempre estarão presentes através das lembranças. Isso deveria significar muita coisa para nós. Afinal, como pode alguém que já provou a morte – e teoricamente não existe mais – ainda viver tão intensamente nas memórias de quem ainda é vivo? E não apenas na memória, pois aqueles que já morreram se de algum lugar pudessem nos ver, veriam que há em nós uma parte deles ainda caminhando na terra devido às influências que exerceram em nossas vidas.

Nossos atos, pensamentos e até trejeitos foram fortemente forjados por estes, que por um aparente descuido do universo, já não estão fisicamente entre nós. Digo apenas fisicamente porque não somos apenas um corpo, pois se acaso fôssemos, a arte, a música, as danças, e as mais belas poesias já teriam sido extintas, pois não sobreviveriam ao pragmatismo cético de quem acredita que é apenas uma criatura fruto de um acidente cósmico.

Somos seres complexos que foram criados à imagem e semelhança de alguém que desconhece as limitações do espaço-temporal. E é nesse estágio infantil da humanidade que estamos inseridos hoje: presos a um corpo habitando o espaço-tempo. Apesar dessas limitações, reside em nós uma realidade metafísica intrínseca que nos move em direção à eternidade.

Toda a realidade a nossa volta comprova que a morte não simboliza o fim, mas apenas uma passagem para outro plano de existência. Conforme a própria natureza ilustra, a semente quando cai em terra boa, morre e se transforma numa linda e grandiosa árvore. Dessa forma, testemunhamos que é na morte que se manifesta o maior milagre da vida.

Ame seus pais, seus filhos, seu conjugue. Granjeie amigos, seja sincero, doe-se mais. Semeie o amor em cada ser humano que encontrar, pois este é o elo que nos liga a uma imensa corrente que atravessa gerações inteiras e nos permite viver eternamente no olhar daqueles que nos amam e que compartilharam conosco o mesmo ar, a mesma casa, a mesma cidade, o mesmo país, o mesmo mundo, a mesma Vida.

Sobre o autor

João Carlos

João Carlos

João Carlos é um maltrapilho anônimo brincando de ser escritor. Em dias comuns, trabalha para sustentar seu vício em café e chocolate. Na folga, gasta a maior parte do seu tempo colecionando pensamentos subversivos. Repudia clichês, mas não resiste a uma alma sincera.