Psicologia & Comportamento

Será que o filho reconhece a voz da mãe logo após o nascimento?

voz
Leonardo Guimarães
Escrito por Leonardo Guimarães

Mito ou verdade?

Antes de começar a discutir sobre este tema relativamente polêmico, faço questão de enfatizar que existem diferentes abordagens e diferentes metodologias de estudo acerca deste tema, e que nenhuma concepção está totalmente consolidada. Ainda existem muitas perguntas sobre este tema que nos permitem continuar estudando. A singela contribuição que proponho no presente texto é embasada em estudos no campo das Neurociências, com os quais tenho mais familiaridade.

Existe uma tendência em pensar que o filho, logo ao nascer, já reconhece a voz de sua mãe, tendo em vista que passara nove meses a escutando frequentemente. Mas essa tendência romântica acerca da maternidade não pode ser considerada um fato, pois não há evidências científicas suficientes para tal.

Para afirmarmos que um indivíduo consegue reconhecer a voz de outro indivíduo, temos que considerar alguns requisitos fundamentais. Em primeiro lugar, para um indivíduo conseguir reconhecer um som, ele precisa dispor de estruturas anatômicas suficientemente desenvolvidas para capturar este som, o que para um humano significa o ouvido externo e todo o complexo sistema de transdução do estímulo sensorial auditivo, que decodifica ondas sonoras no nosso cérebro. Em segundo lugar, reconhecer significa distinguir, lembrar de algo específico. Logo, reconhecer um som obrigatoriamente requer a capacidade de: (1) receber estímulos auditivos; (2) decodificá-los no Sistema Nervoso Central; (3) armazenar estas informações por meio de processos mnemônicos e (4) evocar a memória com relativa precisão diante do mesmo som.

É fundamental considerar que os processos de consolidação e evocação de uma memória requerem um nível elevado de desenvolvimento do sistema nervoso central, sendo o hipocampo, o córtex entorrinal e núcleos talâmicos exemplos de estruturas diretamente envolvidas nas memórias auditivas, e que se desenvolvem amplamente ao longo dos primeiros anos de vida e não apenas no período intrauterino..

Acerca deste aspecto, a Pesquisadora Mirelle Araujo Casagrande, cujo trabalho tive o prazer de conhecer durante a sétima edição do Curso de Neurociências da UFRGS, me relatou que nos primeiros anos de vida, até aproximadamente os cinco anos, grande parte das experiências vivenciadas não conseguem ser evocadas posteriormente, e que esse fenômeno é conhecido como “amnésia infantil”. A Pesquisadora diz não haver certeza ainda sobre o motivo pelo qual ocorre essa perda de informações, embora seja bastante provável que a neurogênese (nascimento de novos neurônios) expressiva nesse período de vida esteja associada ao fenômeno.

Há uma série de limitações em estudar o desenvolvimento durante o período intrauterino. Ainda assim, técnicas recentes de neuroimagem permitem mapear o desenvolvimento cortical, e o que alguns estudos sugerem é que antes da vigésima semana de gestação o indivíduo não dispõe de estruturas suficientemente desenvolvidas para realizar todo o processo de recepção e transdução dos estímulos auditivos. Logo, seria aparentemente impossível, ou ao menos bastante improvável, que algum indivíduo conseguisse ter uma memória auditiva vivenciada durante este período.

O estudo mais recente que encontrei, investigando a hipótese de que existem memórias fetais e que essas persistem no período neonatal, é de 2006. Um estímulo auditivo artificial foi dado repetidamente entre a 38ª e a 40ª semana de gestação, causando inicialmente reações motoras nos fetos, que com o passar das sessões apresentaram redução, significando uma habituação ao som (nesse caso,habituação pressupõe reconhecimento). Após o nascimento, foram realizados testes nos primeiros dias de vida, com condições semelhantes às sessões de habituação intrauterina, incluindo a utilização de uma interface composta de tecido animal muscular, preenchida de soro fisiológico quente, para simular o ambiente placentário. A taxa de resposta motora dos recém-nascidos que tinham sido estimulados no útero foi significativamente inferior à das crianças do grupo controle, que não receberam a estimulação. Os resultados sugerem que os bebês do grupo experimental habituaram mais cedo, podendo significar a existência de memória fetal e que essa persiste na vida neonatal.

Diante de dados como esse, deve-se levar em conta que é apenas um estudo, e portanto, não significa nenhuma comprovação, não podendo originar interpretações conclusivas. Os próprios autores da pesquisa também ressaltam que a confiabilidade dos resultados pode ser questionada, pois estudos anteriores não encontraram o mesmo efeito da estimulação, utilizando a mesma metodologia. Além disso, os dados obtidos não podem ser comparados com a hipótese de reconhecimento neonatal do som da voz materna, pois o objetivo do estudo foi outro, e variáveis importantes não foram investigadas,principalmente as diferenças acústicas entre ambiente pós-natal e intrauterino, bem como alcance da voz humana através da placenta.

Diante da falta de argumentos que sustentem a hipótese, talvez a capacidade de um filho reconhecer a voz de sua mãe após o nascimento não seja compatível com a versão poética que algumas mães desejam ser possível. Mas isso não reduz a importância do vínculo materno no desenvolvimento humano. Enquanto mamíferos, temos uma necessidade notável de afeto e proteção, providas pelas relações sociais, que muitas outras espécies não apresentam.

Embora seja  natural que os vínculos sociais aumentem gradativamente ao longo do desenvolvimento, nos primeiros meses de vida, resumem-se basicamente ao ambiente familiar, de forma que a relação entre mãe e  filho é importante para o crescimento saudável da criança. Uma mãe que consiga proporcionar a devida proteção de forma saudável e equilibrada, sem gerar apego inseguro, sem dependência, sem cobranças autoritaristas, sem controles excessivos e patológicos; uma mãe que ajude o filho a construir sua liberdade, sua autonomia e sua independência desde os primeiros instantes de vida, talvez não consiga superar os limites anatômicos a ponto de fazer com que seu filho reconheça sua voz desde o período embrionário, mas certamente fará com que seu filho se lembre do cuidado materno para o resto de sua vida!

* Gonzalez-Gonzalez NL, et al. Persistence of fetal memory into neonatal life.Acta Obstet Gynecol Scand. 2006;85(10):1160-4.

Sobre o autor

Leonardo Guimarães

Leonardo Guimarães

Leonardo é estudante de Graduação em Psicologia e Pesquisador de Iniciação Científica pelo Centro Universitário Cenecista (UNICNEC), situado na Cidade de Osório, Rio Grande do Sul. Possui interesse pelos mecanismos neurais de doenças neurodegenerativas e de diferentes transtornos de ansiedade. Atualmente, é integrante de um Projeto de Pesquisa que investiga o papel do ambiente familiar na etiologia dos transtornos de ansiedade.