Espiritualidade

Registros na areia – Uma releitura de um dos mais famosos atos de Jesus

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João Carlos
Escrito por João Carlos

Uma lição inesquecível do Mestre Jesus e uma compreensão acerca de seu evangelho.

Era uma linda manhã… Após ter descido do monte das oliveiras, Jesus foi ao templo e não muito tempo depois logo havia surgido um amontoado de gente para ouvi-lo. Suas palavras eram um refrigério em meio a um vulcão de legalismo e hipocrisia.

Aproveitando a ocasião, os fariseus e alguns escribas se aproximaram trazendo uma mulher arrastada pelos cabelos, e a puseram bem no meio do círculo que havia se formado. Ela havia sido pega em flagrante traindo seu esposo.

Denunciaram ao Mestre o que ela havia feito, e em tom agressivo, disseram a Jesus o que estava registrado na Lei de Moisés acerca do adultério e a punição que deveria ser imposta àquela mulher.

Olhando para eles e para ela, Jesus curiosamente começa a escrever na areia. Enquanto os religiosos relatam uma lei inflexível e registrada em tábuas de pedra, Jesus parece escrever e registrar os pecados daquela mulher na areia, num lugar onde logo o vento e as pegadas irão apagar.

Após ter chocado a todos com uma de suas mais famosas declarações: ” — quem não tem pecado, que atire a primeira pedra”, ele olha para a mulher − e naquele momento imagino que ela tenha entendido o recado − e sem nenhuma exigência a oferecer, ele lhe concede o perdão sem lhe perguntar nada, apenas onde estavam seus acusadores, que de repente, haviam sumido subitamente.

Em seguida, Jesus lhe diz para ir e não pecar mais, e de maneira subversiva mostra que o perdão precede o arrependimento: não exigindo nenhum tipo de penitência primeiro para perdoar quem quer que seja. Ele concede o perdão incondicionalmente, assim mesmo, sem critério algum.

Mesmo depois de uma lição dessa dada pelo próprio Mestre, ainda imaginamos um Deus que está com os olhos à procura das nossas falhas, para que então, possa registrá-las para nos cobrar a conta mais tarde. A verdade é que não entendemos a Graça de Deus, é difícil para nós entendermos que Ele não se lembra dos nossos erros e nos enxerga com profunda compaixão.

A cultura do mérito e da justiça própria nos roubou a humildade de ter prazer de se relacionar com um Deus que entende nossos conflitos e nos ama incondicionalmente. Como diz um dos meus escritores prediletos, Brennan:

“Deus o ama como você é, não do jeito que você deveria ser, pois você nunca será do jeito que deveria ser.”

Essa mensagem ainda hoje é um escândalo para aqueles que preferem o caminho do mérito e do reconhecimento. No entanto, creio ser a única mensagem que nos salva, sobretudo de si mesmo. Na mensagem da Boa Nova vemos o apelo de um Pai que cansou de ver seus filhos fazendo um esforço inútil ao buscar uma perfeição inatingível.

Ele nos chama ao descanso e à certeza de que seu primogênito Jesus Cristo realizou tudo o que tinha de ser realizado. Embora seja simples assim, não é fácil. Nossa natureza ama a sensação de merecimento, e a maioria de nossas devoções são apenas para aplacar nossa consciência e/ou em troca de bênçãos.

Não há relação de amor incondicional, não há favor imerecido. Quanto a mim, rendo-me à Graça de Deus e desisto da máscara que a religião impõe que eu vista. E se isso faz de mim um pecador, um iníquo, um rebelde, que seja. Assumo minha falência. E que minha oração seja apenas uma: “Deus, tem misericórdia de mim que sou pecador”.


Leia também: A vida nunca tem fim: a realidade metafísica da morte.

Sobre o autor

João Carlos

João Carlos

João Carlos é um maltrapilho anônimo brincando de ser escritor. Em dias comuns, trabalha para sustentar seu vício em café e chocolate. Na folga, gasta a maior parte do seu tempo colecionando pensamentos subversivos. Repudia clichês, mas não resiste a uma alma sincera.