Mundo & Sociedade

A polarização política no Brasil – uma carta de rendição

política
João Carlos
Escrito por João Carlos

Sinto saudade da época em que ideologias políticas não nos separavam. Saudade de quando podíamos zoar quem votava no “Enéas 56”, e ninguém deixava de ser amigo por causa disso.

Não, meu caro amigo (a). Dessa vez não vim afrontar você com minhas ideias. Tampouco quero impor meu ponto de vista político. Eu sei que você fica irado quando ouve uma opinião diferente da sua por ter suas próprias convicções e valores, e eu também fico. Mas isso está acabando com a nossa sociedade, enquanto eles, os senhores do engenho, engordam com aquilo que é do povo.

Vim para erguer uma bandeira branca, em nome da paz, e acabar com essa guerra que nos separa. Ambos queremos o bem, ambos queremos uma sociedade melhor, mais justa, mais igualitária, mais humana e próspera. Eu também quero, quem não quer?

Essa briga não faz nenhum sentido, pois deveríamos estar no mesmo lado. Estamos no mesmo barco, e se ele afundar, todos nós iremos para o brejo – você e eu, independentemente do que a gente acredita ou não. Quando nos ofendemos um ao outro, a gente está, na verdade, numa batalha de egos, que não trará nenhum progresso à nossa sociedade.

Sinto saudade da época em que ideologias políticas não nos separavam. Saudade de quando podíamos zoar quem votava no Enéas 56, e ninguém deixava de ser amigo por causa disso.

Saudade até – e quem diria que alguém pudesse sentir saudade disso – de quando política era apenas aquilo que a gente via na propaganda eleitoral e ria dos candidatos toscos.

Sim, a era da informação e da internet acabou com a nossa alienação, mas trouxe consigo elevadas doses de intolerância e desrespeito.

O povo finalmente ganhou voz, e o que era para ser uma única voz, se tornou um coro desafinado e desajustado.

Começo a pensar que estão certos aqueles que dizem que a ignorância é uma benção. É trágico, mas parece-me que apenas assim conseguimos caminhar de mãos dadas.

Uma sociedade “politizada” é boa, mas não podemos continuar nesse Fla X Flu incessante. É inaceitável que depois de tanto lutarmos pela democracia, não sabemos ainda como agir diante da pluralidade de opiniões do nosso povo.

O que nos fará andar na mesma direção e ter uma única voz, não é fazer com que todos concordem com o nosso ponto de vista, pelo contrário, é aceitar que haja outros ideais, e debater esses ideais de forma justa e respeitosa. Levando sempre em consideração o bem comum de todos independentemente do credo, raça, classe social ou opção sexual de cada um.

Tenho a impressão de que há uma guerra fria pairando sobre nós. A cada geração que passa, surgem e ressurgem velhos elementos que nos separam. Racismo, religião, política… o que mais inventaremos para alimentar essa guerra? Somos especialistas quando o assunto se trata de rivalidade.

Nossa insensatez foi tão longe, que quando o candidato que não queremos ganha uma eleição, alguns até torcem para que dê tudo errado. Só para mostrar que estavam com a razão. Como disse anteriormente, tudo não passa de uma batalha de egos.

Proponho um pacto entre nós, um pacto que irá nos nortear nesse caminho rumo a uma sociedade melhor. Quando virmos alguém defendendo alguma causa, ideal, partido ou candidato, não vamos cair no engano de pensar que ele o faz com más intenções, mas o faz por acreditar que aquele seria o melhor caminho para que se alcance o bem comum. Ele não quer ver o nosso mal. Se ele defende um conceito é porque em algum aspecto ele vê que existe uma lacuna que precisa ser preenchida, algo que está sendo ignorado e precisa de atenção.

Finalizando, você pode achar que eu sou ingênuo demais, e pode até ter razão. Mas não enxergo futuro nessa polarização política que se instalou no Brasil. Não há futuro para um povo que não aprende a dialogar. Por isso, levanto minha bandeira branca. E que a paz esteja sobre este lugar, e principalmente, que haja paz entre nós.

Sobre o autor

João Carlos

João Carlos

João Carlos é um maltrapilho anônimo brincando de ser escritor. Em dias comuns, trabalha para sustentar seu vício em café e chocolate. Na folga, gasta a maior parte do seu tempo colecionando pensamentos subversivos. Repudia clichês, mas não resiste a uma alma sincera.