Cinema

“Room”: um filme sobre nossos condicionamentos mentais.

João Carlos
Escrito por João Carlos

Ainda que conheçamos o mundo real, percebemos que a maioria de nossas certezas acerca deste, na realidade não passam de ilusões criadas em função de nossa autopreservação.

Um filme que desperta emoções, fascina a alma e inunda a mente de sabedoria. De uma forma sensível e intensa somos transportados para dentro do personagem de Jack, um menino que nasce e passa os cinco primeiros anos de sua vida mantido dentro de um quarto-cativeiro com sua mãe que foi sequestrada, sem nunca sequer ter visto como é do lado de fora, a não ser pela velha televisão, que para o Jack nada mais é do que uma caixa mágica que contam histórias irreais (será que ele está errado?).

Sua mãe, portanto, um dia resolve abrir seus olhos ao contar que existe um mundo enorme, com outras pessoas e com infinitas possibilidades do lado de fora. De forma agressiva e desesperada, Jack rejeita qualquer ideia da qual sua mãe estivesse tentando lhe convencer. É algo perturbador para sua mente acreditar que existe algum tipo de vida do outro lado das paredes daquele quarto.

O longa parece ter sido inspirado no Mito da Caverna, escrita pelo filósofo grego Platão, que conta a história de prisioneiros desde o nascimento que vivem presos por correntes numa caverna, o único contato com o lado exterior é através de uma fogueira que projeta luz na parede interior da caverna, e é através das sombras que aparecem refletidas pela luz que os prisioneiros podem ver o que acontece do lado de fora, mas para eles tudo o que existe é apenas aquela sombra. Certo dia, um deles consegue se soltar e sai da caverna. Ao ver tudo que existe, ele fica encantado com o mundo real e resolve voltar para soltar os amigos prisioneiros, mas é hostilizado ao contar tudo o que viu.

No fim, acaba sendo morto por seus companheiros sob a acusação de ter ficado louco. Assim como no filme, para Jack a verdade é apenas aquilo que ele consegue ver, e o mundo inteiro cabe dentro de seu quarto.

Me diga, quantos Jacks da vida real você conhece? Toda vez que alguém fala sobre religião, política, seus dogmas e conceitos, sem considerar o olhar do outro e a diversidade que existe no mundo ao seu redor, ele é como Jack. Para eles, a verdade é apenas aquilo que se pode ver, ou uma informação que lhe tenha sido mais conveniente acreditar. É claro que toda crença é válida, e todo ser humano tem o direito de crer ou descrer. No entanto, limitar nosso olhar apenas para aquilo em que acreditamos e hostilizar as crenças alheias não faz nenhum sentido. Nosso conjunto de crenças está amplamente relacionado à geografia do lugar em que nascemos. Quem nasce na Índia, por exemplo, têm menores chances de se tornar um cristão, como também a possibilidade de ser um muçulmano tendo nascido em família espírita é mínima.

Em suma, “O quarto de Jack” coloca-nos cara a cara com nosso medo do desconhecido, sentimento ao qual conhecemos muito bem.  Afinal, muitos de nós optamos por uma vida rotineira e sem desafios, e com isso deixamos de conhecer as mais belas paisagens e prazeres que a vida tem a nos oferecer. Ainda que conheçamos o mundo real, percebemos que a maioria de nossas certezas acerca deste, na realidade não passam de ilusões criadas em função de nossa autopreservação.

O momento em que Jack consegue sair do quarto foi marcado por uma forte sensação de vertigem, e ele mal consegue abrir os olhos devido à luz. Aos poucos ele vai se adaptando a nova realidade, mas mesmo assim, volta a meia lhe vem à memória o conforto e a segurança que aquele quarto-cativeiro trazia.

Mais uma vez, somos como Jack!

Somos como Jack quando sentimos falta daquilo que nos fazia mal.

Somos como Jack quando achamos que o mundo gira em nossa volta.

Somos como Jack quando nossas crenças ferem a liberdade de quem pensa diferente.

Jack cresceu, e com o tempo percebeu que tudo aquilo era apenas fantasia e que o mundo real era muito mais interessante do que o seu mundo imaginário. É lamentável que muitos, mesmo depois de terem experimentado a realidade, não consigam se libertar do cativeiro onde permanecem suas almas.

 

 

Sobre o autor

João Carlos

João Carlos

João Carlos é um maltrapilho anônimo brincando de ser escritor. Em dias comuns, trabalha para sustentar seu vício em café e chocolate. Na folga, gasta a maior parte do seu tempo colecionando pensamentos subversivos. Repudia clichês, mas não resiste a uma alma sincera.