Cinema

O Deus da Cabana – Um amor incondicional e subversivo

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João Carlos
Escrito por João Carlos

A Cabana irá abrir sua mente para conhecer um Deus amoroso, um Deus que não granjeia servos, e sim amigos. Um Deus que a gente olha e percebe que é impossível não amá-lo.

O filme conta a história de Mack, um homem que vive atormentado pela morte de sua filha mais nova. Após alguns anos da tragédia, ele recebe uma carta em sua casa o convidando a voltar ao local do crime: uma cabana abandonada. O remetente da carta era o próprio Deus, assinalado como Papa.

A história tem sido alvo de críticas desde seu lançamento, críticas em sua maior parcela vindas do público evangélico, que se refere ao filme como uma heresia. Alguns acham inaceitável um Deus se manifestar na forma humana como é apresentado, não só isso: acreditam que o filme/livro mostra um Deus bonzinho demais, e que isso distorce a imagem do Deus Todo Poderoso.

Bem, caso você não seja uma criança de 3 anos, fica óbvio que o longa trata-se de uma ficção e não tem a pretensão de ser considerado uma fonte teológica. Todavia, impressiona a capacidade que a narrativa tem de reacender em nós o significado do que seria um relacionamento verdadeiro com Deus, ao mesmo tempo em que desconstrói a imagem de um grande sábio de barba branca, que pune aqueles que não o obedecem e abençoa aqueles que o seguem.

Uma declaração contida nos evangelhos talvez nos sirva para refutar as duras críticas que o filme vem recebendo por parte dos religiosos: “a letra mata, mas é o Espírito que vivifica”. Em outras palavras, as pessoas se apegam tanto às palavras, doutrinas e teologia, que perdem a sensibilidade para perceber e aprender com as lições sutis que nos cercam no cotidiano. Muitos, por discordarem teologicamente do filme, não conseguem compreender a reflexão trazida sobre o perdão e seu poder restaurador. Distraem-se com minúcias e simbolismos, e perdem a essência da mensagem que está sendo transmitida.

Li o livro há quase 7 anos atrás, e foi um divisor de águas em minha jornada espiritual. Recomendo tanto o livro quanto o filme, pois eles irão abrir sua mente para conhecer um Deus amoroso, um Deus que não granjeia servos, e sim amigos. Um Deus que a gente olha e percebe que é impossível não amá-lo. Cultivando um relacionamento de amizade, e não baseado no medo.

O Deus da Cabana expressa um amor incondicional e subversivo, e faz ecoar dentro de nós declarações como a de Brennan Manning, que dizia: “Deus o ama como você é, e não como você deveria ser, pois você nunca será do jeito que deveria ser”. Pensar num Deus assim incomoda alguns, soa mal e herético para quem está acostumado com a figura de um grande Juiz que segrega a humanidade, levando uns para o paraíso enquanto condena outros ao inferno. Bem, se é essa a imagem que você tem acerca de Deus, então o filme realmente irá chocá-lo. Mas, se você é alguém que tem muitas perguntas sem respostas, e tem dificuldades em relacionar-se e aceitar a ideia desse Deus que venderam à você, então eu te convido a assistir.

Como dizia Fernando Pessoa: “Deus não é ideia minha, a minha ideia de Deus é que é uma ideia minha”. Com o passar dos séculos, a imagem de Deus foi sendo deturpada pela religião que não queria um Deus amistoso, afinal, um Deus general vem muito mais a calhar para manter o povo no cabresto. Um Deus de amor liberta-nos do cativeiro, e tira o poder de manipulação daqueles que acreditam tê-lo sob custódia.

Bem, se você tem dúvidas acerca da natureza e da bondade de Deus, eu recomendo muito que você assista, pois são utilizados argumentos que nos convencem do quanto somos limitados e não enxergamos a realidade como ela é, e o principal, o quanto somos especialmente amados por Ele. Se for chorão ou chorona recomendo um lenço, e não se incomode com o funga-funga durante o filme. Acredite, vai ser difícil segurar.


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Sobre o autor

João Carlos

João Carlos

João Carlos é um maltrapilho anônimo brincando de ser escritor. Em dias comuns, trabalha para sustentar seu vício em café e chocolate. Na folga, gasta a maior parte do seu tempo colecionando pensamentos subversivos. Repudia clichês, mas não resiste a uma alma sincera.