Crônicas & Poemas

O colecionador de fracassos

fracasso
João Carlos
Escrito por João Carlos

A procrastinação o consumia drenando todas as chances de sucesso, gerando quase sempre um sentimento de vergonha e fracasso. No entanto, esperava que um dia tudo fosse se resolver milagrosamente.

Por João Carlos

Ele sempre foi diferente da maioria. Quando pequeno, as comparações de seus parentes com seus colegas e primos o transtornavam. Cresceu frágil, afundado em autocríticas. Mas não foi difícil encontrar formas de mascarar suas limitações e fragilidades. Logo aprendeu a ser um impostor, o que lhe garantia sobrevivência em seu meio social.

Em seu primeiro emprego, ficou feliz, mesmo não sendo grande coisa. Mas se entristecia amargamente quando, mesmo em pequenas atividades, não correspondia às expectativas de seus superiores.

Era um bom amigo, daqueles que gostam de ouvir. Afinal, ele nunca teve muito sobre o que falar. Por não acreditar em si mesmo, não se interessava por nada que lhe exigisse um pouco mais de esforço. Por causa disso, tinha poucas ou quase nenhuma história interessante para contar, e assim, quase sempre acabava assumindo o papel de um mero ouvinte. O futuro lhe apavorava. Não gostava sequer de pensar sobre como seria sua vida quando se tornasse um adulto.

Os amigos pareciam sempre estar à frente dele, por isso, não eram raras as vezes em que ele se sentia inferior. Era esquisito, e não demorou muito para ficar melancólico também. Se envolveu com a música, a fim de tentar fazer com que sua voz interior conseguisse finalmente ser ouvida. Mas como em tudo o que havia tentado antes, também não deu certo.

Deixava a vida o levar, afinal, sua insegurança era tão grande que ele preferia manter-se anônimo, sem voz. A procrastinação o consumia drenando todas as chances de sucesso, gerando quase sempre um sentimento de vergonha e fracasso. No entanto, esperava que um dia tudo fosse se resolver milagrosamente.

O tempo passou e o milagre nunca veio. Mas lá estava ele, ainda no mundo da lua, até que a lua juntamente com todo o firmamento desabaram sobre a sua cabeça. Ele havia percebido o quanto estava destruindo sua vida, e pior, a vida de todos aqueles a quem amava. Perguntava-se num tom apavorante quanta coisa poderia ter conquistado se fosse normal como todo mundo.

Chorou copiosamente enquanto pedia desculpas para o seu pai, que talvez o estivesse ouvindo na eternidade, pois finalmente percebeu o quanto falhara na existência. Chorou, sobretudo, pelo tempo que passou e por tudo o que deveria ter feito e não fez.

Hoje, em seu céu não existe mais lua para que ele ainda viva por lá. Hoje ele nasceu de novo, e seu mundo é o chão onde pisa. Ainda que seja um perdedor, pela primeira vez ele se sente parte da humanidade, vivendo e respirando o mesmo ar poluído que todos os mortais. Após esse estupro da realidade, talvez, ele possa finalmente sair de sua concha solitária e assumir de vez para o mundo que é um bom colecionador de fracassos.

Sobre o autor

João Carlos

João Carlos

João Carlos é um maltrapilho anônimo brincando de ser escritor. Em dias comuns, trabalha para sustentar seu vício em café e chocolate. Na folga, gasta a maior parte do seu tempo colecionando pensamentos subversivos. Repudia clichês, mas não resiste a uma alma sincera.