Música

A Novidade – Gilberto Gil • Análise de Letras

a novidade
João Carlos
Escrito por João Carlos

“A novidade” é uma tocante e enigmática canção sobre a desigualdade social.

A Novidade
(Compositor: Gilberto Gil)

A novidade veio dar a praia
Na qualidade rara de sereia
Metade o busto de uma deusa maia
Metade um grande rabo de baleia
A novidade era o máximo
Um paradoxo estendido na areia
Alguns a desejar seus beijos de deusa
Outros a desejar seu rabo pra ceia
Oh mundo tão desigual
Tudo é tão desigual
O, o, o, o…
De um lado esse carnaval
De outro a fome total
O, o, o, o…
E a novidade que seria um sonho
O milagre risonho da sereia
Virava um pesadelo tão medonho
Ali naquela praia, ali na areia
A novidade era a guerra
Entre o feliz poeta e o esfomeado
Estraçalhando uma sereia bonita
Despedaçando o sonho pra cada lado


Essa canção composta pelo talentosíssimo músico Gilberto Gil, tem em seu núcleo uma série de alegorias que simbolizam a desigualdade social no mundo.

Ela carrega consigo a intenção de expor como é a percepção dos fatos através do olhar do feliz poeta (representando o rico), e do pobre faminto, traçando um paradoxo entre eles num mesmo cenário.

Enquanto os admiradores filosóficos da sereia ficavam impressionados com sua beleza, os famintos que não ouviam outra coisa a não ser o roncar de seu estômago, só tinham olhos para a sua materialidade, afinal de contas, a fome e o extinto de sobrevivência alteram drasticamente nossa capacidade de discernimento e percepção.

Isso nos faz pensar, e até mesmo deixar de criticar os miseráveis que se encontram entre nós. Nossa crítica vem do fato de que pressupomos que todas as pessoas no mundo têm as mesmas oportunidades, cabendo a cada um a responsabilidade de ser o que quiser, e que tudo só depende do esforço de cada um. Usamos raras exceções para validar esse pensamento, citando catadores de lixo que se formaram, ou pessoas miseravelmente pobres que um dia alcançaram o sucesso.

A novidade, exposta na canção, fala de uma guerra traçada entre a fantasia do rico, contra a fome do pobre. E o que era para ser um sonho se torna um pesadelo. A convivência entre eles gera um caos, uma vez que o rico não quer abrir mão de sua vida luxuosa, causando revolta e indignação por parte do pobre que só consegue perceber a vida através de uma ótica desvalida.

Tenho uma lembrança muito viva na minha mente de um período da minha vida onde convivi um pouco com essa desigualdade.

Eu trabalhava em um escritório de construção civil na zona sul do Rio de Janeiro. Havia engenheiros, advogados, arquitetos, gerentes. Todos muito bem vestidos, e com aquele “ar de vida feliz”. Semelhante ao que vemos em novelas sabe? E eu era apenas o cara do arquivo.

Na hora do almoço todos eles saíam para almoçar em restaurantes caros, que nem em sonho eu ousaria ir. E quando por algum imprevisto eu não conseguia levar minha comida de casa, eu ia até um sacolão e comprava meia dúzia de bananas. Ia para a beira da praia, e as comia enquanto assistia aquelas pessoas tão felizes correndo, bebendo água de coco, andando de bicicleta, surfando, jogando futevôlei… etc. Tinha dia que aquilo mexia um pouco comigo, e me entristecia bastante pensar como nesse mundo tem gente com tanto dinheiro, enquanto outros com tão pouco. Mas quando eu chegava em casa, tinha uma mãe que me amava me aguardando, e com um belo prato de comida para mim. Aquilo renovava minhas forças e me dava suporte emocional para enfrentar qualquer adversidade no dia seguinte.

Mas e quando não há isso? E quando não há ninguém te esperando com um prato de comida no fim do dia? E quando não há ninguém? E quando você precisa conviver com a violência, o abuso, a falta de carinho e de atenção? Tudo se torna infinitamente pior.

Graças a Deus, hoje eu frequento os mesmos restaurantes que antes eu achava ser impossível um dia frequentar. Porém, aquela e outras experiências de escassez me marcaram de tal forma, que ainda me incomoda muito o fato de haver tanta desigualdade nesse mundo.

Concluo dizendo que pensar, se superar, romper as barreiras e vencer na vida é fácil, mas desde que você tenha todos os seus direitos garantidos. A Constituição diz que é crime roubar e matar, e condena aqueles que o praticam. Mas eu pergunto: Viver à margem da sociedade tendo que sobreviver às vezes com até menos de um salário mínimo, sendo vítimas de preconceitos, violência e segregação, não seria um crime contra a vida humana também?

Não sou contra uma vida confortável. Mas sou a favor de que TODOS tenham os mesmos direitos de viver, e não de sobreviver. É óbvio que no mundo sempre haverá um certo nível de desigualdade. Porém, os direitos básicos devem ser garantidos para que todos realmente tenham a chance de uma vida digna.

 

Essa versão do Paralamas ficou ótima!


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Sobre o autor

João Carlos

João Carlos

João Carlos é um maltrapilho anônimo brincando de ser escritor. Em dias comuns, trabalha para sustentar seu vício em café e chocolate. Na folga, gasta a maior parte do seu tempo colecionando pensamentos subversivos. Repudia clichês, mas não resiste a uma alma sincera.