Crônicas & Poemas

“Não sei quem sou, que alma tenho.” | Fernando Pessoa

fernando pessoa
Tudo Inverso
Escrito por Tudo Inverso

Um poema encantador de Fernando Pessoa.

Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade
não sei com que sinceridade falo.
Sou variamente outro do que um eu
que não sei se existe (se é esses outros).

Sinto crenças que não tenho.
Enlevam-me ânsias que repudio.
A minha perpétua atenção sobre mim
perpetuamente me aponta traições de alma
a um caráter que talvez eu não tenha,
nem ela julga que eu tenho.

Sinto-me múltiplo.
Sou como um quarto com inúmeros
espelhos fantásticos que torcem
para reflexões falsas uma única
anterior realidade que não está
em nenhuma e está em todas.

Como o panteísta se sente árvore (?)
e até a flor, eu sinto-me vários seres.
Sinto-me viver vidas alheias, em mim,
incompletamente, como se o meu ser
participasse de todos os homens,
incompletamente de cada (?), por uma suma
de não-eus sintetizados num eu postiço.

Sobre o autor

Tudo Inverso

Tudo Inverso

Interpretando a vida onde a vida acontece.