Música

“Geração Coca-Cola” – Legião Urbana • Análise de Letras

geração coca-cola
João Carlos
Escrito por João Carlos

Análise e interpretação da música Geração Coca-Cola, do Legião.

A Legião Urbana é até hoje venerada por suas letras subversivas e críticas. Em minha opinião, era uma das bandas que mais expressava o espírito do Rock. São canções que despertam em nós o senso crítico e às vezes expressam emoções que dificilmente conseguiríamos pôr em palavras. Aliás, esse era um excelente dom que Renato Russo tinha.

Para tentar entender melhor essa música, é necessário, antes, saber o contexto cultural ao qual a mesma foi escrita em 1985. O Brasil estava saindo de um período da Ditadura Militar, e estava apresentando seus primeiros sinais frente à globalização que o alcançara.

Ao abrir as portas para o mundo, muita coisa chegou arrebatando uma geração inteira. As influências externas tiveram um grande impacto, sobretudo, mudando nossas vestimentas, nossa forma de falar, e sobretudo, nossa música.

Lembrando que essa é uma livre interpretação. Ou seja, não há nada absoluto aqui. Se você tiver uma outra opinião, esta seria muito bem vinda nos comentários. Só não pode me xingar, ok? 😉

 

Geração Coca-Cola
(Legião Urbana)
Quando nascemos fomos programados
A receber o que vocês
Nos empurraram com os enlatados
Dos U.S.A., de nove as seis.

Nesta primeira estrofe, Renato mostra logo a que veio com essa canção: criticar a influência social que os EUA exerciam/exercem sobre nossa cultura. Tudo muito artificial, como os enlatados. E reitera, dizendo que essa manipulação vinha principalmente através dos meios de comunicação, como rádio e TV. Talvez isso explique a preferência da massa aos nomes e marcas estrangeiras, nossa MPB foi enfraquecida, usam roupas com palavras em inglês que, às vezes, sequer sabem o significado. Tudo como consequência dessa massiva influência.

Desde pequenos nós comemos lixo
Comercial e industrial
Mas agora chegou nossa vez
Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês

Crescemos sendo dominados e forjados na cultura norte americana. Como robôs sendo fabricados numa linha de produção, não fomos preparados para pensar, e sim reproduzir. No entanto, havia uma repulsa dos jovens por essa “americanização”. Por isso, reagiam devolvendo o lixo que receberam.

Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Somos o futuro da nação
Geração Coca-Cola

Esta estrofe, recheada de ironia, expressa uma juventude que foi massivamente exposta a todo tipo de manipulação, mas que querem lutar pela busca de sua verdadeira identidade e propósito. São subversivos, mas não há como negar que a influência que receberam é praticamente irreversível.

Por fim, ele ironiza mais ainda pondo um dos maiores símbolos do comércio internacional, a Coca-Cola, como representante dessa geração “enlatada”, mas que parece começar a despertar.

Depois de 20 anos na escola
Não é difícil aprender
Todas as manhas do seu jogo sujo
Não é assim que tem que ser
Vamos fazer nosso dever de casa
E aí então, vocês vão ver
Suas crianças derrubando reis
Fazer comédia no cinema com as suas leis

Mesmo com toda a manipulação, conseguimos perceber que tudo não passava de um jogo sujo. À medida que a globalização chegou mudando nosso País, também trouxe consigo a era da informação, e com informação, ninguém mais fica alienado.  Aqui acredito também que Renato previu um futuro não tão distante, em que essas “crianças” um dia zombariam de todo o sistema, e finalmente, poriam fim à era da censura.

Hoje, a internet está aí: dando voz àqueles que antes só ouviam e reproduziam como papagaios. Hoje somos livres para pensar e se expressar. Mesmo assim, tem gente desejando a volta da ditadura. Perante isso, percebo o quão complexo o ser humano pode ser, a ponto de reverenciar o opressor em detrimento da sua própria liberdade… mas deixaremos para discutir isso em outro post. 😉


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Sobre o autor

João Carlos

João Carlos

João Carlos é um maltrapilho anônimo brincando de ser escritor. Em dias comuns, trabalha para sustentar seu vício em café e chocolate. Na folga, gasta a maior parte do seu tempo colecionando pensamentos subversivos. Repudia clichês, mas não resiste a uma alma sincera.