Espiritualidade

Como continuar vivendo plenamente depois da morte de um ente querido?

perda
Débora Duarte
Escrito por Débora Duarte

Mesmo em meio à dor de uma perda irreparável, não podemos esquecer de viver e acabar enterrando junto com a pessoa falecida nossos sonhos, nossa alegria, nosso otimismo, nossa plenitude.

Parece que nossa essência como ser é um quebra-cabeças com peças insubstituíveis. Algumas dessas peças já nascem conosco e muitas outras vão sendo reunidas ao longo da vida. Esta composição molda nossa visão de mundo, baseia nossa identidade, confere sentido ao que acreditamos. Algumas dessas peças são pessoas.

Vamos vivendo a vida com aquela sensação tão confortável quanto irreal de sermos eternos aqui. De repente, alguém fundamental para nós se vai deixando um vazio com o qual seremos obrigados a conviver. Dura sentença. Terrível condenação.

As pessoas reagem de formas diferentes à perda de um ente querido, mas em geral, no início parece que a “ficha não cai”. Ficamos esperando a hora de acordar desse sonho ruim e novamente estar com a pessoa amada que partiu. Em alguns momentos esquecemos do que aconteceu e até nos perguntamos “onde ele está? ” ou  “a que horas ele vai chegar?”. Não estamos preparados para certas despedidas.

De uma hora para outra, a vida perde a cor, a graça. Chegamos a duvidar se seremos felizes outra vez, se voltaremos a sorrir. Temos que lidar com a dor da ausência de quem partiu, mas também com a dor de um coração mutilado que bate em nosso peito. Nos perguntamos como viveremos sem aquela pessoa, mas também nos questionamos como voltaremos a ser nós mesmos depois de tão triste evento.

Falta uma peça. Ficamos incompletos.

Ouvimos palavras de consolo e concordamos com a cabeça só para disfarçar, porque o que estamos sentindo é inconsolável. É como se o chão se abrisse sob nossos pés. Tudo perde o sentido, a razão de ser.

A grande questão é que alguém que amamos morreu, mas nós continuamos vivos, assim como outras pessoas amadas. O luto é um processo importante e até necessário, por isso deve ser vivenciado. Porém, não devemos esquecer de nós mesmos e dos que ficaram. Nesse duro momento, é preciso que sejamos honestos e sinceros. Não devemos reprimir lágrimas nem sorrisos. Devemos ser pacientes, principalmente conosco, e crer que a dor intensa vai passar e iremos reencontrar o equilíbrio emocional. A vida voltará a ser colorida. É preciso acreditar.

Nesse momento a gratidão é muito bem-vinda. Ela é como um analgésico poderoso, um bálsamo que alivia a alma. Experimente ser grato pelo tempo em que desfrutou da companhia daquele ente querido, por tudo que aprendeu com ele, pelo legado que foi deixado e que se perpetuará. Muito mais do que bens materiais, o bom exemplo de um caráter digno atravessa gerações com lições e ensinamentos práticos. Se não houver muito que agradecer nem bons momentos a recordar, evite ao máximo sentimentos como culpa, remorso, arrependimento e auto piedade. Eles são tóxicos e cultivá-los em seu coração o deixará enfermo.

­­Mesmo em meio à dor de uma perda irreparável, não podemos esquecer de viver e acabar enterrando junto com a pessoa falecida nossos sonhos, nossa alegria, nosso otimismo, nossa plenitude. Não é justo com quem fica que nos tornemos indivíduos incompletos e infelizes. Devemos ser inteiros para os queridos que ficaram porque a felicidade deles depende de nós também. Cada um de nós é peça insubstituível no quebra-cabeças de algumas pessoas.

O lugar outrora ocupado por quem se foi não será preenchido, nem por outras pessoas, nem por objetos, nem por passatempos, nem por vícios, por nada. Ter consciência disso é importante para aprender a lidar com a falta que essa pessoa nos faz. A ausência é irreversível, a pessoa que se foi é insubstituível, mas nós não somos imutáveis. Este processo nos marca tanto que saímos dele transformados. Aliás, para passarmos por ele é preciso que haja essa mudança. A peça perdida pode ser única, mas nós podemos mudar nosso olhar sobre o quebra-cabeças que compõe a essência do nosso ser. A partida dessa “pessoa-peça” pode dar origem a outras peças que irão compor nossa essência. Como por exemplo, a maior valorização dos momentos bons da vida, o fortalecimento de alguns elos de amizade, o novo hábito de dizer “eu te amo” mais vezes, dentre outras.

Essas novas peças deixam o nosso ser diferente e em alguns casos até mais bonito. Assim, com o passar do tempo, a gente se pega apreciando o pôr-do-sol de novo, rindo com amigos em volta da mesa, se pega sonhando outra vez, se percebe vivendo de novo.

Sobre o autor

Débora Duarte

Débora Duarte

Débora Duarte é professora de História, mãe da Isabela e esposa do Felipe. Fascinada pela vida em todos os sentidos, busca refletir sobre seus diversos aspectos, dos mais sutis e corriqueiros aos mais complexos e profundos.