Insights

O lado negativo da competitividade.

competitividade
João Carlos
Escrito por João Carlos

Quando a competitividade se torna algo nocivo em nossas vidas e prejudica nossas relações.

Quando eu era criança, sempre me perguntava qual seria o motivo de tanta paixão que a maioria das pessoas tinha pelo esporte, aqui no Brasil mais comumente pelo futebol. Nos papos entre os homens, a pauta do esporte era quase unânime e prioritária. Sentia-me um peixe fora d’água (e ainda me sinto) quando não há diálogo mais interessante do que quem está em primeiro lugar na tabela do brasileirão.

Lendo as entrelinhas, eu percebia que o que estava em jogo não era apenas o time favorito, mas sim uma pulsão intrínseca pela competição em si.

Tal espírito competitivo estende-se aos relacionamentos também, pois alguns diálogos passam mais a sensação de duelo do que de uma conversa amistosa. E é mais frequente entre casais, onde ambas as partes parecem acumular pontos quando vencem alguma discussão. Não se busca o bem comum da relação, mas sim quem é melhor e quem está com a razão.

Desde cedo somos ensinados a impor nossas opiniões a fim de desenvolver uma saudável auto estima. E seguimos assim até o dia em que nos tornamos adultos super competitivos, que não levam desaforo para casa, que temos de buscar morar no melhor lugar e ter um carro melhor que o do vizinho. Não há problema algum se você não se sente realizado no trabalho, desde que receba um salário gordo no fim do mês que seja suficientemente bom para patrocinar o estilo de vida de um típico vencedor.

A vida para muitos é uma corrida. E talvez essa seja a origem da paixão exacerbada por esporte da nossa sociedade. Não estou aqui dizendo que gostar de esportes é ruim, claro que não. Reconheço a importância do seu papel em formar cidadãos tirando jovens do crime, por exemplo, e dando um propósito de vida a muitos. Apenas acho estranho supervalorizarmos o esporte ao mesmo tempo em que ignoramos tantos fatos relevantes e graves que acontecem ao nosso redor.

Talvez nossa competitividade crônica tenha chegado a um nível tão profundo em nós que não conseguimos mais enxergar a vida sob uma ótica simples e amistosa. Para muitos, o combustível que os mantém de pé e funcionando é a competitividade.

Felicidade se tornou sinônimo de superioridade e a sensação de satisfação só será alcançada se houver alguém abaixo de nós. Buscando na origem, é aquela sensação que a mamãe provoca na filho quando ele faz pirraça na hora da refeição e ela diz que um menino de rua não tem o que comer e que adoraria estar no lugar dele. Como consequência disto, em lugar da tristeza, experimentamos até um certo alívio ao repararmos o sofrimento alheio, agradecendo aos céus por aquilo não estar acontecendo conosco ou em nossa família.

A verdade é que com o crescimento da cultura competitiva, estamos perdendo aos poucos o altruísmo. Nos deixamos levar por discursos meritocráticos que alimentam a cada dia mais a nossa indiferença em relação ao sofrimento alheio.

Nossos heróis são aqueles que superam os outros, e não aqueles que se superam.

Os vencedores são aqueles que passaram por cima de todos a fim de alcançarem seus objetivos, e não aqueles que persistem na honestidade e nos valores éticos.

Ainda que o individualismo seja cada vez mais notório, eu ainda acredito na pacificação das nossas relações, para que aprendamos mais uns com os outros e possamos nos enxergar como verdadeiros irmãos e não como rivais. E embora eu me sinta utópico, ainda torço por um mundo mais amistoso e menos competitivo.

 

Sobre o autor

João Carlos

João Carlos

João Carlos é um maltrapilho anônimo brincando de ser escritor. Em dias comuns, trabalha para sustentar seu vício em café e chocolate. Na folga, gasta a maior parte do seu tempo colecionando pensamentos subversivos. Repudia clichês, mas não resiste a uma alma sincera.