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Amizades que se perdem no tempo

João Carlos
Escrito por João Carlos

Parece-me que o tempo é como um grande filtro cósmico, responsável por coar nossas relações, a fim de que sobrem apenas as melhores e as que realmente valem a pena.


Há muito ouço dizer que o tempo reduz nossas amizades até que seja possível contá-las nos dedos. Essa é uma daquelas leis da vida que são inquestionáveis, sabedoria passada de pai para filho. Em meio a esse cenário, alguns sofrem, outros celebram, e muitos ficam confusos procurando respostas para tal fenômeno. Eu fui um destes confusos, durante certo tempo, e sempre me vi inclinado a procurar em mim os motivos desses misteriosos afastamentos.

A culpa é a pior inimiga nessas horas. Enquanto alguns preferem se apoiar nos erros alheios, muitos tendem a se culpar. Procuram em si mesmos defeitos ou traços de personalidade que, porventura, possam ter contribuído para o rompimento.

Por outro lado, outros têm uma dificuldade imensa em admitir que realmente mudaram, e que essas mudanças trouxeram consigo rupturas necessárias para o desenvolvimento. Seria simples, mas o nosso ego parece exigir de nós uma resposta dramática àquilo que é apenas uma consequência natural da vida.

Precisamos de uma vez por todas entender que o afastamento de algumas pessoas é inevitável, e que sofreremos muito caso a gente force a barra para dar continuidade a esses relacionamentos. Por causa do comodismo, às vezes, nos sentimos inseguros ao tomar certas decisões que irão impactar nossas relações, mas jamais podemos deixar de ser quem somos por causa de terceiros. De outro modo, é importante também que haja respeito com quem decide se afastar. Não podemos cair no engano de exigir algo que não é de nosso direito.

Exceto em casos onde realmente erramos – e claro, aqui é importante o reconhecimento do erro e um pedido sincero de perdão – devemos nos acostumar com o fato de que nem sempre há culpados nessa história. Por estarmos em constante transformação, é impossível manter certas amizades ao longo do tempo. Sobretudo, quando há conversão de valores e conceitos.

Há amizades que resistem a essas mudanças, e essas sim, merecem a devida valorização, pois se tornaram fenômeno raro num mundo cada vez mais egocêntrico e intolerante.

Parece-me que o tempo é como um grande filtro cósmico, responsável por coar nossas relações, a fim de que sobrem apenas as melhores e as que realmente valem a pena.

No fim, você terá poucos amigos, mas esse remanescente será mais forte que o exército do mundo inteiro.

 

Sobre o autor

João Carlos

João Carlos

João Carlos é um maltrapilho anônimo brincando de ser escritor. Em dias comuns, trabalha para sustentar seu vício em café e chocolate. Na folga, gasta a maior parte do seu tempo colecionando pensamentos subversivos. Repudia clichês, mas não resiste a uma alma sincera.