Psicologia & Comportamento

Problemas se agravam quando reprimimos traumas de infância.

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João Carlos
Escrito por João Carlos

Reprimir lembranças traumáticas pode causar danos irreparáveis.

Certo dia tentei lembrar-me de eventos trágicos que me acometeram durante a infância à procura de respostas e soluções para alguns problemas e comportamentos atuais. Por incrível que pareça, não foi fácil lembrar. Com exceção de uma ou outra, as imagens em minha mente iam ficando cada vez mais confusas, impossibilitando o acesso àquelas memórias.

Parece que em algum momento da minha vida eu tranquei aqueles traumas em um baú e joguei as chaves no mar. Mas o baú continuava lá o tempo todo, conservando os traumas. Estavam trancados e “esquecidos”, mas nunca deixaram de fazer parte de mim. Era como se minha mente tivesse criado um bloqueio de segurança a fim de me proteger da dor gerada por aquelas lembranças ruins.

Talvez seja do consenso da maioria de que esquecer um trauma é algo bom e significa que superamos o problema. No entanto, deve-se tomar muito cuidado com os caminhos pelos quais nossa mente cria para reprimir essas memórias. Quando simplesmente tentamos “esquecer” um trauma, transferimos tais lembranças para o nosso inconsciente, lugar onde habitam nossos impulsos instintivos, sendo também a parte da nossa mente responsável por reger nosso comportamento. Portanto, o fato de esquecer um trauma o torna ainda mais grave e perigoso com consequências muitas vezes irreparáveis.

A cada vez que reprimimos um sentimento ou uma memória traumática, mais empurramos esse lixo emocional para dentro de nós, até chegar ao ponto em que habitar a própria pele será algo insuportável, e você sequer entenderá o porquê.

Como abrir esse baú e jogar todo esse lixo fora? Como se livrar desses traumas e ter uma vida plena?

Nunca vi alguém limpar esgoto e sair limpo. Da mesma forma, não há como mexer nesse baú sem sujar as mãos. O trabalho sujo deverá ser feito e não há outro caminho e nem quem possa fazer isso por você.

É necessário estar disposto a encarar velhos sentimentos. Ver de novo aqueles rostos antigos e com isso se lembrar dos males que cada um te fez e das palavras amargas cujo amargor encontra-se encruado em sua alma até hoje.

Como por exemplo, a primeira vez em que sentiu-se rejeitado pela sua mãe ou pelo seu pai. Esse foi um dos primeiros sentimentos a entrar no baú, e por causa disso você não consegue amar ninguém, tampouco a si mesmo. Ou parte para outro extremo, onde os outros sempre terão mais prioridade na sua vida do que você. Tornando-se um escravo emocional de qualquer um que se aproxima devido à extrema baixa autoestima.

Se for mais fundo, vai achar a palavra “burro (a)” já bem desgastada pelo tempo. Você a guardou ainda quando era uma criança. Mas ela nunca te deixou, e te tornou a pessoa mais insegura da terra.

Vai achar também a primeira vez em que se sentiu frustrado. Não somente por ter errado em algo. Mas por nunca ter conseguido corresponder às expectativas da sua família. Até que você tentava, mas seus colegas e primos sempre pareciam ser mais inteligentes e interessantes do que você. Assim, ficou em ti esse angustiante sentimento de comparação aos outros.

É tanta porcaria que guardamos dentro de nós.

Uma vez que encontramos coragem de abrir esse baú e encarar tudo de novo, temos a chance de dar a resposta devida a cada trauma. Não lute contra suas lembranças, apenas diga a elas, em tom firme, quem você realmente é. E diga o que elas realmente são: apenas lembranças mortas de um passado distante e que hoje não é mais necessário carregar tanto fardo desnecessário.

Quem te define a partir de hoje é você. Exerça esse controle. Você é livre para ser autor da própria história. Construa boas memórias e cultive bons momentos. Jamais tente esquecer o passado, será inútil. Segundo Jung, “aquilo que você resiste, persiste”. Um passado ruim não deve ser esquecido, ele deve ser superado. E ambos não são sinônimos.


OBS.: Procure um Psicanalista! Ele é o profissional mais indicado para te ajudar a entender e a superar os seus traumas.

Sobre o autor

João Carlos

João Carlos

João Carlos é um maltrapilho anônimo brincando de ser escritor. Em dias comuns, trabalha para sustentar seu vício em café e chocolate. Na folga, gasta a maior parte do seu tempo colecionando pensamentos subversivos. Repudia clichês, mas não resiste a uma alma sincera.